O Abismo - parte 1
O Abismo - parte 1
O vácuo é um lugar estranho de se estar.
Mas talvez esse vácuo seja só uma impressão. Uma ilusão.
Desaprender o modus operandi de estar constantemente recebendo informação familiar à mente, para chegar em um momento em que novas informações precisam ser desenvolvidas, é um tanto desafiador.
Talvez este não seja um vácuo.
Eu já caí no abismo.
Logo eu que tinha medo do abismo, estou no fundo dele agora.
E percebo que nesse abismo, não há vácuo.
O que há é um mundo novo.
Há um vale, com um rio. O céu está vermelho alaranjado, mas cinzento de poeira levantada.
Quem sabe essa poeira não é tudo o que foi revelado?
Nenhuma poeira fica mais debaixo de tapete algum. Nem mesmo um grão de areia.
Tudo está no ar. Suspenso. Visível.
Talvez seja aqui neste abismo que tudo pode ser visto em suas profundezas, e nada é escondido. Pois do chão, não passa.
É aqui que encaro meus maiores desafios e medos. A aridez do solo, contrasta com as águas do rio que corre. Águas quentes, que fervilham, aquecendo o ar, umidificando-o.
A névoa do vapor sobe, e só dificulta diferenciar o que é poeira do que é vapor.
Mas depois você percebe que não faz sentido separar poeira e vapor. Os dois fazem parte dos pensamentos. Do inconsciente. Embora temos a vontade de separar, é quase impossível. Tudo fica em constante suspensão. Pensamentos que pairam o tempo inteiro.
A missão é aprender a viver neste ambiente. Andar até encontrar o fim do abismo, sem se perturbar tanto com o conteúdo suspenso.
O vapor só aumenta, e as núvens são muitas.
E em algum momento elas irão precipitar.
Onde é o fim do abismo?
Sigo o rio. É o único que sabe para onde vai.
É a única referência viva não viva, pois nada mais se move ao meu redor, ao não ser o rio e eu.
Penso ser a única alma viva neste lugar. Até que percebo pequenas formiguinhas andando pelo chão, em fileira. Elas andam com extrema organização. Elas sabem pra onde tem que ir. Sempre tem um grão de areia ou uma folha pra carregar. Elas têm sempre um propósito de construir. Grandes arquitetas da terra.
Sou como essas formigas, sempre buscando por um propósito.
Neste momento, o abismo me ensina que existem coisas conhecidas e desconhecidas. E que as coisas conhecidas, aparecem para nos relembrar da nossa essência. Já as coisas desconhecidas, nos desafiam a encarar aventuras. Conhecer nossas capacidades em meio aos imprevistos. Testam nossa força através dos revézes.
Como eu pude ser tola de achar que tudo isso era vácuo?
Que o ócio era inútil?
Que eu não teria capacidade pra lidar?
Na falta de palavras, minha mente se volta para um mundo de fantasia, ou de símbolos que possam me representar.
Continuando...
Eu decidi seguir o rio, enquanto lido e convivo com as névoas e poeiras.
Elas não me incomodam mais. Porque estou constantemente olhando para elas. Gotículas e névoas em pó. Como estou sempre olhado para meus pensamentos e identificando medos, desesperos, desesperanças, distorções, pessimismos, tristezas, frustrações, comparações.
Decido entrar no rio e deixar a correnteza me levar. O rio é lento. Mas no momento que fervilhar, ele pode correr. Mas será que eu quero correr? Eu posso me afogar.
Vou deixar o rio passar. E eu passo junto, seguindo seu curso. Até que haja um fim no abismo.
Mas e se esse abismo não tiver fim?
Continuo seguindo o rio?
Será que existe a certeza de que este rio realmente vai chegar em algum lugar?
E se eu seguir a correnteza e desaguar em um beco sem saída? Depois de tanto navegar pelo vale do abismo....
Ok.
Isso tudo é preocupação. Falta de fé de que chegará em algum lugar.
Será que eu devo ter fé e acreditar que há um lugar pra onde ele deve chegar? Devo dar esse voto de confiança no fluir do rio?
Eu poderia muito bem encontrar um jeito de escalar o paredão do abismo e retornar à superfície.
Mas será que o abismo não está me PEDINDO que eu o explore?
Posso explorar, sem a expectativa de que haja um fim do abismo, e mesmo que eu chegue em um beco sem saída, pode haver algo de interessante por lá. E pelo menos terei explorado o fundo do abismo para saber o que há nele de verdade, vendo com meus próprios olhos.
O medo que as pessoas tem de explorar o abismo, as leva a nunca desbravar suas sombras.
Muitos que chegaram ao fundo, se depararam com a névoa e a fumaça que dificulta a visão, dificulta enxergar o horizonte, se encontram sós em meio a grandes paredões sem fim, e sentem vontade de desistir e retornar à superfície.
Mas uma vez no fundo do poço, no fundo do abismo, jamais se volta o mesmo para a superfície. Nem se em algum momento tentar subir de volta escalando as paredes antes de explorar tudo, e muito menos se volta o mesmo depois de explorar.
A maioria tem medo de explorar, porque tem medo do medo.
Pois é. Acho que eu me rendi. Eu queria tanto seguir um caminho, que nem sequer pensei em subir os paredões de volta, porque eu sabia que daqui de baixo, já estaria fadada a ter que preservar minha energia para lidar com o que havia acabado de se apresentar ao meu redor. Eu preferi usar os elementos ao meu redor como Norte para continuar a seguir meu caminho.
E talvez isso requeira mesmo que eu explore tudo antes de subir a superfície.
E quem sabe no final do desfiladeiro, não haja um fim dos paredões rochosos? E haja um horizonte iluminado pela luz do sol?
É uma longa jornada. Mas pode também não ser. Nunca se sabe. O rio não para por conta de poeira e névoa. Não irei parar também. A água não para. Ela só passa. Eu também passarei.
Quanto tempo levarei para explorar o abismo? Não sei. Honestamente, eu não sei.
Talvez eu comece a apreciar tanto o explorar, e o próprio lugar, que precisarei seguir em frente em algum momento para levar o meu conhecimento e tudo o que eu descobri, à diante.
Como já havia desconfiado.
Talvez um dos meus propósitos, seja aprender a desatar o nó e ensinar a outros como fazer o mesmo.
Talvez seja aprender a encarar poeiras e névoas, mesmo sem saber pra onde estou indo, e ensinar outros a fazer o mesmo. Em meio à incerteza.
E tudo isso só é possível em meio ao caos. Em meio à tormenta. Em meio à escassez de recursos, nós criamos recursos internos para continuar o trajeto.
E depois que o trajeto acaba. Tenho a missão de deixar passo a passo para cada um que estiver passando por seu abismo. E estiver disposto a enfrentá-lo. Faça calor ou frio.
No final, todo o trajeto será visto de outra forma. Tudo o que antes era considerado difícil, será história. Todos os medos de não encontrar a luz no fim do túnel, serão completamente desmistificandos e inúteis.
E vou olhar pra trás e ver que o abismo nem era tão alto, nem tão interminável. Tudo era uma questão de percepção. Ao final do desfiladeiro, terei a visão do trajeto inteiro, sabendo cada passo que dei e cada solução que achei.
E depois disso, o final do desfiladeiro é o fim de um abismo, de um ciclo, e início de outro.
E do abismo, irei ao vento. E com o vento, à superfície. Para deixar ao mundo, o legado do abismo.
23 de julho de 2024
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