Sobre a desconexão do homem moderno com a natureza e o divino
Sobre a desconexão do homem moderno com a natureza e o divino
Levemos em conta a natureza não linear da existência, considerando que a evolução da consciência do ser humano não é linear, e sim cíclica ou até ousaria dizer, oscilatória. Isso é algo que muitos, principalmente os cientistas, discordariam. Porém, ao vasculharmos as origens pouco reveladas da humanidade, temos alguns fatos descobertos por um grupo seleto de indivíduos estudiosos dessa outra parte da história, que provam que o ser humano não é o ser mais evoluído que já viveu no planeta Terra, e que existiram seres com consciência mais evoluída que habitaram aqui milênios atrás. Aí nós podemos ver que o ser humano na verdade é um ser menos evoluído em consciência do que as civilizações anteriores ao homo sapiens sapiens.
Sendo assim, nossa evolução não é completamente linear.
O que faz acharmos que ela é linear, é o fato de que nossa ciência só conseguiu estudar um pedaço pequeno da história a partir de certo ponto, e dali a impressão que se tem é que a evolução é linear. Mas o que prova que estamos errados, é a nossa capacidade mental reduzida, que faz com que não encontremos todas as respostas. Nosso nível de consciência não nos permite enxergar e entender muitas coisas.
Com esse raciocínio, podemos refletir sobre a sociedade moderna atual e sua desconexão com a intuição. Em "O homem e seus símbolos", Carl Jung relata que o homem moderno está desconectado da natureza, da intuição e emoção, sendo tomado pela lógica e racionalidade cega. Isso prova que estamos cada vez mais vivendo no automatismo, e que o significado profundo da vida se perdeu no meio do caminho da suposta "evolução". Mas outra reflexão que Jung trás nessa sua obra, é que os antigos povos como os indígenas e os celtas, tinham uma conexão muito grande com o que se chama de divino e com a intuição. Provavelmente, esta conexão intuitiva, sem a influência da racionalidade científica, trazia muito mais fluidez para suas existências. Enquanto que para o homem moderno, preso a um raciocínio materialista, peca ao não conseguir encontrar respostas precisas para questões subjetivas. Mas o que o óbvio que não é entendido, é que perguntas subjetivas trazem respostas subjetivas, assim como perguntas objetivas só poder ser respondidas de forma objetiva. ( ao não ser que você se esforce muito para dar uma resposta subjetiva e vagueie por outros pensamentos, ou quando você se enquadra como uma pessoa levemente prolixa )
Como então o homem moderno pode ousar querer respostas objetivas para perguntas altamente subjetivas como "qual é o sentido da vida? " ou "porque estou aqui? " ou "o que é Deus? ". Todas essas questões metafísicas são muito mais filosóficas e relativas do que palpáveis com nossas próprias mãos e corpos.
Como então viver preso dentro de uma caixa? Como então viver preso a um sistema de crenças racionais científicas limitadas (crenças sim, pois elas não são apenas religiosas, crença é toda ideia que é comprada como verdade para a pessoa ou repassada de outras pessoas ou gerações, e são aceitas por serem a única ideia que conhecem sobre um assunto).
Isso é o que leva muitas pessoas a adoecerem: por não encontrarem as respostas às suas perguntas; e sendo respondidas, poderia preencher o vazio e angústia existencial. Ou então, podem adoecer simplesmente por não serem capazes de abrir suas mentes para a intuição e deixarem fluir sua imaginação e pensamentos criativos na realidade.
Criatividade não serve só para criar fantasias, mas também para encontrar formas de viver e de se reinventar. Criatividade é o ato de criar. E quando falta intuição, falta imaginação, e portanto falta criatividade, e com isso há a sensação de vazio, de falta de vida no cotidiano. Viver sem sentir a vida e suas possibilidades é algo que pode beirar a depressão, se for permanente.
Podemos então analisar a realidade de um outro ângulo. Talvez os índios das tribos das florestas, ou os celtas que dançavam ao redor da fogueira; por mais que não tivessem o conhecimento científico que temos hoje, que fez com que a humanidade tivesse condições de viver com mais qualidade de vida - a ciência que descobriu a cura de doenças e aumentou a expectativa de vida - ; por mais que esses povos antigos não tivessem essa ciência, é bem possível que mentalmente, se vivia de forma muito mais saudável psicologicamente nessas tribos. A guerra e os conflitos sempre existiram, mas a ignorância em relação à razão - digo a razão que encaixota o pensamento - muitas vezes é uma benção. E se contarmos que na época dos antigos povos, as preocupações eram outras, e o tempo era visto de uma outra forma, diferentemente do mundo atual, cheio de cobranças, autocobranças, ritmo acelerado ... talvez os antigos tivessem uma sanidade bem maior. Enquanto o homem moderno, desconexo da intuição e do divino, evolui materialmente e tecnologicamente, evolui no sentido da ciência e na saúde dos corpos; por outro lado, mentalmente e espiritualmente, está doente.
( existem ainda algumas controvérsias em relação à "melhor saúde" atual, mas isso é papo para outro artigo que deixarei aqui para acesso >> https://soulbellaoliveira.blogspot.com/2025/01/reflexoes-sobre-estilo-de-vida-e-saude. )
O homem moderno tem mais saúde corporal, mas de fato, o homem antigo, teria tido uma saúde mental melhor, estando imune às frustrações vindas dos questionamentos da ciência limitadora.
Em momento algum digo que a ciência é uma vilã e que é ela a culpada por deixar o homem desconexo da sua intuição essencial e do divino. O próprio ser humano, dotado de um ego cada vez mais inflado, se pôs nessa situação, por inúmeros fatores. Vieram as filosofias modernas e pensadores mais questionadores, que de fato tiveram um papel importante em seus tempos e foram úteis para desconstruir o pensamento judaico-cristão, vinculado diretemente aos dogmas da Igreja, instituição que teve - e ainda hoje tem - um grande peso nos valores da sociedade. E mesmo que ao longo das décadas mais recentes, tenha havido uma grande movimentação nesse sentido de desconstrução de conceitos e pré conceitos, ainda sim, existem muitas crenças inconscientes enrraizadas nas pessoas, e que muitas vezes são passadas de geração para geração sem uma pausa para reflexão do sentido dessas crenças e ideias. Então sim, com certeza a ciência veio para somar, e a filosofia veio para refletir sobre o mundo e sobre a vida, e essas vertentes vieram no momento que precisavam vir para apagar um pouco a cegueira da humanidade em relação a esses dogmas religiosos, mas que mais uma vez, ainda se encontram presentes nos influenciando indiretamente, ou diretamente; e com isso, dominando nosso inconsciente e subconsciente em diversos momentos da nossa vida, influenciando também na nossa maneira de ser, nos expressar e agir.
Então a questão aqui não é demonizar a ciência e filosofia que questionam a realidade, nem demonizar as religiões, pois todas essas vertentes tiveram e têm sua importância em algum nível na nossa existência. A forma com que esses conhecimentos são utilizados é que faz a diferença. O cientista cético racional radical pode ser tão perigoso quanto um religioso fervoroso com seu fanatismo radical. Tudo é uma questão excessos e equilibrar esses excessos. A verdade é que o ser humano sempre distorceu muito a maior parte das informações passadas. A informação transmitida oralmente por exemplo, é uma das que mais pode ser distorcida, e até ter completamente modificado o seu verdadeiro significado. É bem possível que muita informação nunca tenha sido de fato entendida em sua completude. A verdade pode ser interpretada de diversas maneiras, e é isso que torna tudo muito mais complexo e relativo. E as informações que foram perdidas ao longo da história, nem se fala.
Mas a questão aqui, sobre a desconexão do homem com a natureza e com a intuição, não vem completamente da interferência da ciência ou filosofia. Essas também foram criadas pelo homem, o influenciaram em parte obviamente, e a partir disso surgiram muitos recursos para viver e conviver em sociedade. A questão mais precisa seria: não radicalizar. Sabemos que qualquer forma de radicalismo leva a conflitos desnecessários, e que nada em excesso é bom. O excesso de religiosidade dogmática nos torna fanáticos, e o excesso de ceticismo nos torna infelizes - e muitas vezes até ignorantes.
É possível enumerar os muitos motivos para essa desconexão homem-intuição. A vida cotidiana frenética, corrida, com uma agenda cheia de compromissos e excesso de produtividade, excedendo limites físicos e psíquicos (mentais e emocionais), é um fator de base que contribui para essa desconexão.
O que podemos observar no mundo é o excesso de imediatismo, levando a uma impaciência; e com isso, é possível surgirem dúvidas sobre a existência de uma força divina maior. Assim como quando muitos grupos tem em mente um ideal de sociedade, um ideal que pode beirar a utopia, e o povo querer um "salvador da pátria" para resolver os problemas de fome, pobreza e escassez no mundo - sendo que nada disso se resolve com um passe de mágica, e a realidade é muito mais real do que utópica, e não salvaremos todos que vivem na fome e pobreza, e não há uma única pessoa que faça isso.
Tudo isso, esse desespero em resover tudo de uma vez só, faz parte de um imediatismo e também de uma ideia utópica de que tudo pode ser perfeito. Nada é impossível, porém é aí que devemos ser racionais e realistas para entender o que é o real e o que é o imaginário, e entender o que é ou não palpável. Ficar no imaginário da solução ideal e imediata, é se pôr constantemente em frustração, e com isso, pode-se levar à posição de vitimização. Toda utopia vem de um ideal, que vem da racionalidade, que vem do ego.
Um dos pontos em que ocorre a desconexão com a intuição e o divino, é aí. A razão entope a cabeça com ideias e não abre espaço para a intuição e para o sentir a natureza. O imediatismo também causa isso, pois a vida não funciona no mesmo ritmo que o nosso, o Universo não gira ao nosso redor. As coisas não acontecem com um estalar de dedos. Isso frustra. E justamente por isso o imediatismo que vem acompanhado da ansiedade. E nesse processo ansioso, a mente também não tem espaço para receber a intuição nem sentir a natureza. Em resumo, o estilo de vida moderno, preso na ideia de alta produtividade sem fim, é um estilo de vida tóxico para muitas pessoas.
Lembrando aqui que todas as ideias dos exemplos, são apenas exemplos mesmo e não generalizações, pois cada um é cada um. Não costumo generalizar em nada.
_____________
O que pensam sobre isto?
A proposta aqui é refletir e abrir espaço para novos paradigmas

Comentários
Postar um comentário